Paulo Dantas exonera aliados, mas mantém secretário investigado por suspeitas de corrupção milionária na Saúde
Na reta final do mandato, governador enfrenta questionamentos sobre critérios das exonerações e permanência de Gustavo Pontes de Miranda, investigado pela Polícia Federal na Operação Estágio IV
Dantas corre o risco de sair politicamente menor do que entrou
A reta final do governo Paulo Dantas (MDB) em Alagoas está sendo marcada por uma série de exonerações e por questionamentos sobre os critérios políticos e administrativos adotados pelo governador. Enquanto servidores comissionados e integrantes da estrutura governamental deixam seus cargos, Gustavo Pontes de Miranda permanece à frente da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), mesmo após ter sido alvo de uma investigação da Polícia Federal envolvendo suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e irregularidades em contratos públicos milionários.
Segundo informações divulgadas pela imprensa alagoana, somente na edição do Diário Oficial de 13 de outubro foram publicadas 282 exonerações de servidores comissionados. Os desligamentos ocorreram após o resultado das eleições e atingiram diferentes órgãos da administração estadual. A dimensão dos cortes, especialmente neste momento de encerramento de mandato, levanta questionamentos sobre planejamento administrativo, critérios técnicos e tratamento dispensado aos integrantes da estrutura governamental.
O contraste mais sensível está na permanência de Gustavo Pontes de Miranda no primeiro escalão. Em 16 de dezembro de 2025, o secretário foi afastado por determinação do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), durante a Operação Estágio IV, deflagrada pela Polícia Federal. As investigações identificaram suspeitas de favorecimento em contratações emergenciais que somaram aproximadamente R$ 100 milhões, além de possíveis irregularidades em pagamentos realizados com recursos destinados ao Sistema Único de Saúde (SUS).
É importante esclarecer que os R$ 100 milhões correspondem ao valor aproximado dos contratos investigados, e não a um montante integralmente comprovado como desviado. A investigação também apontou suspeitas envolvendo pagamentos superiores a R$ 18 milhões por procedimentos médicos e fisioterapêuticos, cuja regularidade passou a ser questionada pelos investigadores.
Em fevereiro de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) suspendeu cautelarmente o afastamento de Gustavo Pontes, permitindo seu retorno à secretaria. A decisão considerou questões jurídicas relacionadas à condução inicial da investigação e à proporcionalidade das medidas restritivas. O secretário nega ter cometido irregularidades e sustenta que sua gestão sempre esteve aberta à fiscalização. A investigação, por sua vez, não representa condenação criminal.
Embora a recondução tenha respaldo na decisão judicial, a permanência do secretário suscita um debate legítimo sobre os critérios administrativos utilizados pelo governador. Se a gestão considera necessária a exoneração de centenas de ocupantes de cargos comissionados, quais são os parâmetros empregados para preservar integrantes do primeiro escalão envolvidos em investigações de grande repercussão?
A questão não consiste em defender punições antecipadas ou desrespeitar decisões judiciais, mas em cobrar coerência, transparência e responsabilidade na administração pública. A manutenção de um secretário investigado é juridicamente distinta da exoneração de servidores comissionados, mas ambas as decisões estão sujeitas ao escrutínio público quanto às razões administrativas e políticas que as fundamentam.
Outro ponto que merece esclarecimento é o resultado da comissão especial anunciada pelo próprio governo para acompanhar as investigações na Saúde. Diante da gravidade das suspeitas, a divulgação das providências adotadas, dos mecanismos de controle implementados e dos eventuais resultados administrativos seria uma medida relevante para fortalecer a confiança da população.
Dantas corre o risco de sair politicamente menor do que entrou
O encerramento de um governo não é avaliado apenas pelo conjunto de obras, investimentos e indicadores administrativos. A maneira como um governador conduz a transição, administra conflitos e trata seus colaboradores também integra o balanço de sua trajetória política.
Nesse contexto, as exonerações em massa, associadas à permanência de um secretário investigado em um caso de grande repercussão, oferecem elementos para uma avaliação crítica sobre as prioridades da atual gestão.
A expressão de que Paulo Dantas poderá sair politicamente menor do que entrou representa uma interpretação sobre o desgaste de sua liderança, e não um fato mensurável ou uma conclusão definitiva. Ainda assim, a sucessão de decisões administrativas na reta final do mandato coloca em discussão a capacidade do governador de preservar a confiança construída durante sua passagem pelo Palácio República dos Palmares.
A exoneração de ocupantes de cargos comissionados é uma prerrogativa legal da administração. Entretanto, a legalidade dos atos não elimina a necessidade de explicações sobre seus fundamentos, sobretudo quando ocorrem em grande escala e em um período de transição política.
Paulo Dantas ainda tem a oportunidade de esclarecer os critérios das exonerações, apresentar os resultados das providências administrativas relacionadas à Operação Estágio IV e demonstrar que suas decisões obedecem a princípios de interesse público.
A pergunta que permanece é objetiva: quais critérios justificam a saída de centenas de servidores e a manutenção, no primeiro escalão, de um secretário que esteve no centro de uma investigação federal sobre contratos milionários da Saúde?
Responder a esse questionamento com transparência é fundamental para que o encerramento do mandato não seja marcado apenas pelas exonerações, pelas controvérsias e pelas dúvidas sobre a condução política e administrativa do governo.